Diário de Notícias
Segunda-Feira, 2 de Fevereiro de 2004

«O que me fascina é a beleza da matemática»

Entrevista com Gregory J. Chaitin, Matemático Norte-Americano. Aos 15 anos teve a ideia que o tornou um dos nomes importantes da ciência. O acaso, na matemática, tem a sua assinatura


Gregory J. Chaitin

O pai era dramaturgo e o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque foi um dos lugar es da sua infância. «Adoro a arte», diz. A sua casa é «como um museu, cheio de quadros e esculturas». Tornou-se matemático pela beleza das ideias e pela aventura do conhecimento e, com a aleatoriedade, deixou a sua marca nesta ciência. Esteve em Lisboa para lançar o seu último livro Conversas com um matemático (Gradiva) e já está a escrever outro. O tema é a filosofia da matemática.


FILOMENA NAVES

O que o fascina na matemática?

O que me fascina numa mulher bela, na Baixa de Lisboa? É a beleza de ambas que me fascina.

A matemática é bela, portanto.

Sim, a beleza das ideias atrai-me.

Que beleza é essa?

O mundo real é uma confusão. Mas a matemática é um mundo em que as ideias funcionam e isso é belo, é uma iluminação que nos permite compreender algo. A busca dessas ideias é uma aventura. Os portugueses foram a todo o lado, descobriram o mundo. Eu também sou um explorador mas já não há muito para descobrir no planeta. Faço-o no mundo das ideias, com a matemática. As ideias matemáticas são uma das maiores proezas da imaginação humana. Tal como a grande música de Bach, por exemplo.

Há matemática na música?

Muita matemática. Foi Leibnitz [filósofo do século XVII] que disse que «a música é a felicidade que a alma experimenta em contar sem saber que o está a fazer».

Mas o seu trabalho é muito mais complexo do que contar.

Não. É muito simples. O que faço é uma espécie de matemática filosófica, muito diferente dos cálculos necessários à construção de uma ponte, por exemplo. O que me interessa na matemática são ideias profundas, não ideias úteis. O que procuro é uma nova visão que torne simples algo complicado e compreensível o que não se percebia. Quando se consegue há uma sensação de maravilhamento, como perante uma grande pintura ou uma peça de Shakespeare. E as ideias que funcionam acabam por ser úteis também mais tarde.

As suas ideias já deixaram marca na matemática. Fale-me delas.

Ainda não tinha 13 anos, quando deparei com o teorema de Godel [formulado em 1931] sobre os limites da matemática. O que me fascinava era como se podia utilizar a matemática para mostrar as suas próprias limitações. Fiz muitas leituras, aprendi sozinho, tive sorte com a escola, porque fiz um curso de liceu especial para jovens dotados, saltei graus. Aos 15 anos tive uma ideia, a da aleatoriedade, acreditei que era por ali e consegui depois chegar à sua definição. A noção de aleatório aqui não significa, como na física, a imprevisibilidade, mas a ideia da não obediência a uma lei, a ausência de estrutura ou padrão.

Fala da beleza da matemática, mas a a maioria dos alunos parece não conseguir vê-la. O ensino tem que mudar?

As crianças são muito curiosas, têm uma capacidade de aprendizagem fantástica e o conhecimento é uma grande aventura. As crianças adoram jogos e a matemática é isso mesmo. A escola tem que dar essa aventura às crianças. Se não dá, é ela que está errada. E é um erro esperar pela universidade para que os jovens contactem com a ciência, a física e a matemática do século XX. Essas ideias devem tornar-se familiares logo na primária, sem necessidade de detalhes e complexidades.

O que será a matemática no futuro?

Gostava que fosse uma matemática da biologia, para nos mostrar o que são a vida, a inteligência ou o pensamento. Gostava que a matemática do futuro permitisse compreender melhor essas coisas. Tenho tentado trabalhar sobre isso, mas ainda não cheguei a lado nenhum. A bioinformática é um campo hoje muito activo, mas é necessária uma teoria profunda que possa trazer uma nova compreensão. Não sei se é possível, mas espero que seja.