Na universidade, a matemática é apresentada como um edifício perfeito e acabado. Os teoremas aparecem tão bem arrumados como os artigos do Código Civil. E, tal como nas grandes religiões, o dogma é inquestionável e não há lugar para a dúvida. Muito menos para a heresia. É por isso que uma parte da comunidade dos matemáticos nutre um verdadeiro ódio de estimação por Gregory Chaitin.
Este investigador do Centro Thomas J. Watson da IBM tornou-se famoso pela não-convencionalidade da sua abordagem ao mundo matemático, não tendo receio de jogar com um conceito aparentemente contra-natura: a aleatoriedade. E atrevendo-se a dizer que há factos matemáticos que são verdade por acaso, ou pelo menos sem nenhuma razão logicamente demonstrável. Esteve este ano entre nós para uma série de conferências universitárias e publicou a versão portuguesa do seu último livro, Conversas com Um Matemático. Já em Setembro de 1998 fora entrevistado pelo Expresso, numa altura em que a sua obra era ainda relativamente desconhecida do grande público (ver «Revista», 26/9/98).
Para Chaitin, caso se explique aos alunos que problemas concretos se estavam a tentar resolver na época da enunciação das teorias, a compreensão é muito mais natural e eficaz. «Para mim, que cheguei à matemática pelo lado da física, isto é evidente.» E mesmo matemática da mais abstracta, como a criada por Cantor, «na sua versão original era muito mais intuitiva e continha paradoxos que agora são omitidos». Mas «procurava responder a problemas sentidos na época».
Gregory Chaitin
Hoje, uma das dificuldades da meteorologia, da biomedicina ou da mecânica dos solos é lidar com objectos e fenómenos que parecem comportar-se de forma imprevisível, não obedecendo a leis simples e não encaixando nos modelos que os tentam simular. Perante isto, «assistimos a uma mudança de paradigma, à emergência de um novo ponto de vista». Sintoma disso são as teorias do caos e também as ideias de Chaitin, ainda que este se considere mais próximo do pensamento de autores como Stephen Wolfram (autor de A New Kind of Science) ou Edward Fredkin (que introduziu conceitos com os de filosofia digital e física digital). Para este matemático não convencional, uma das coisas que podem ajudar a compreender melhor os sistemas físicos complexos é vê-los «como um sistema que processa informação, trate-se da mecânica quântica ou do ADN». Ponto de vista que não espantará, se nos lembrarmos que Chaitin tem uma facilidade desconcertante para lidar com os computadores e que boa parte da sua vida profissional a isso foi dedicada.
Conversas Com Um Matemático
de Gregory J. Chaitin
Gradiva, 2003, trad. de Leonor Moreira, 172 págs., €12
RUI CARDOSO